O que Deus fez na minha vida – Com Leandro Silva

Publicado: 20 , setembro , 2010 , segunda-feira em RZion +

Aos 5 anos de idade, muito doente, Leandro Silva foi abandonado pela mãe em um hospital de Recife. Um ano depois, saiu de lá direto para as ruas, onde começou a usar drogas e a trabalhar para traficantes. Passado um tempo, conheceu um grupo de evangelistas da Jocum (Jovens com uma Missão), que semearam a Palavra de Deus no coração do pequeno Leandro, que tinha em torno de 10 anos. Só que não foi desta vez que ele recebeu ao Senhor Jesus como Salvador. Voltou para as ruas, drogas, até assaltos. Foi preso, e quando não tinha ninguém para visitá-lo na cadeia, acreditando que sua vida estava acabada, apareceu uma senhora que lhe entregou uma mensagem vinda de Deus especialmente para ele. A partir desse dia, a vida do adolescente mudou. O mesmo Deus que o tirou do lamaçal em que se encontrava, também o ensinou a ler e escrever, já na fase adulta e deu a ele uma esposa, que também trabalha com missões. Em outubro, nascerá sua filha, Ana Beatriz.

Leandro, como foi a sua infância?

A minha história é um pouco complicada. Eu tive uma infância bem difícil, sem conhecer meus pais, minha família. Eu tive uma experiência interessante que hoje marca a minha vida. E eu acredito que vai marcar a mim e aos meus filhos para sempre. Aos seis anos de idade fui morar nas ruas, comecei a usar drogas cedo, e daí pra frente, tive uma fase bem difícil na vida. Me envolvi com traficantes, e com cerca de 8 anos de idade, fui morar no Rio de Janeiro, no complexo do Alemão, e lá virei aviãozinho de traficante. Foi quando comecei a entender que a vida que estava levando não era boa pra mim, e aí lembro que eu quis sair daquela dela, queria ir embora, por isso fui para São Paulo. Me envolvi com drogas novamente. Vi pessoas morrendo ao meu lado. Pessoas que, assim como eu, não conheciam a Deus. Até que um certo dia, um rapaz que era muito amigo meu morreu bem ao meu lado, e tive que fugir do local, porque algumas pessoas queriam me matar. Fui morar em João Pessoa, na Paraíba, já tendo em torno de 10 anos.

Como você conheceu a Jocum?

Em João Pessoa, eu não tinha lugar pra ficar. Então, normalmente, minha dormida era nas praias, nos barcos, e lembro que em meio a tudo isso apareceu uma equipe da Jocum, que começou a me dar a mão. Eles me perguntaram várias vezes se eu queria sair das ruas, se queria mudar de vida, e respondia que não queria, pois não gostava muito de crentes. Eu tinha uma barreira com pessoas evangélicas. Após insistirem muito, e eu também com vontade de querer mudar, falei pra eles: é, vou sair daqui da rua, mas não quero ser evangélico. Se vocês quiserem posso ir para um centro de recuperação, mas não pra ser evangélico.

Eu lembro que eles me pegaram, me deram essa oportunidade, e fui para a primeira base da Jocum em João Pessoa. Chegando lá, tudo era muito diferente. Era uma grande fazenda, tinha cavalos, gados. Certo dia, caminhando naquela fazenda, fiquei perto de um cavalo e disse: Deus, se tu existe, quero me libertar das drogas. Quero ser diferente, quero te conhecer de verdade. Se tu existes, me ajuda a sair das drogas. E lembro que quando falei isso, ninguém me ouviu. Era só eu aquele cavalo e Deus.

O que aconteceu depois?

Eu passei um tempo na base da Jocum (Jovens com Uma Missão) e depois voltei pra rua de novo.Nessa vez fui pra Recife-Pernambuco, e encontrei uma galera então formamos um grupo que existe até hoje, infelizmente. Peço sempre a Deus que me permita voltar lá para evangelizar. Continuei me envolvendo no mundo das drogas, e também nos assaltos, só que desta vez, com pessoas mais da pesada. Nessa época, fizemos um assalto bem grande, maior do que havíamos previsto, e começamos a comemorar. Na época tinha cerca de 12 para 13 anos. Naquela noite de comemoração, fui pego pela polícia. Um policial apareceu, apontou a arma na minha cabeça, mas não atirou. Hoje, sei que aquilo ali foi um livramento de Deus. Fui para um presídio, onde iria pegar mais ou menos uns cinco anos de cadeia por causa das coisas que havia feito, e já fazia um tempo que a polícia estava atrás de mim por coisas piores.

Fiquei isolado, sozinho, e disse: é, a vida pra mim acabou. Durante algum tempo, ficava olhando as pessoas visitarem os presos, e ficava pensando: ninguém virá me visitar. Até que um certo dia, uma senhora, de mais ou menos 65 anos, falou que Deus tinha um propósito na minha vida. Na primeira vez que ela foi me visitar, ela apareceu com uma cesta cheia de frutas e outras coisas, mas eu fiquei assustado e não quis aceitar, por achar  que estavam envenenadas. Falei pra ela que não iria comer aquilo Mas, ela insistiu e  me disse que estavam boas, que não deveria  me preocupar, mas eu disse que não queria. Ela que desse aquilo para outras pessoas. Ela criou um relacionamento comigo, fez amizade, depois de mais ou menos uns seis meses que ela me visitava, e não havia ainda falado de Deus, e nessa época, já depois de uns 7 ou 8 meses preso, ela disse que tinha algo para me falar. Sempre achei só que ela era diferente pelas atitudes dela, pela forma como falava comigo, pela forma que ela olhava pra mim, era muito diferente.

Uma coisa que eu entendo é que quando Deus tem um propósito na vida do homem, Ele vai usar aquela pessoa que jamais se imaginaria. A história daquela mulher também era interessante, pois ela era ex-prostituta, e agora estava fazendo a diferença. Eu não sei se hoje ela ainda está viva, pois quando ela foi até aquele presídio, estava com uma cirurgia marcada em São Paulo, mas Deus havia dito pra ela que não era pra ela  realizar aquela cirurgia antes de ir falar comigo no presídio. E depois desses seis meses, ela disse que tinha algo pra me falar, que sabia que Deus estava no controle da situação, e disse que Deus podia me tirar dali, e tiraria em menos de 2 anos. Mas, argumentei >> que isso não seria possível, que eu tinha que cumprir minha pena pelos crimes que tinha cometido. Mas, ela me assegurou que, em menos de dois anos Deus iria me tirar de lá.

Uma coisa interessante que ela fez foi me falar da conversa que tive com Deus naquela fazenda da Jocum. Pensei “será que aquele cavalo falou aquilo pra aquela mulher?”. Não era possível que alguém soubesse  com tantos detalhes o que eu tinha falado com Deus, naquela fazenda em que estava somente eu e aquele cavalo. É interessante que quando ela falou aquilo, comecei a chorar, e a entender que ali começava o propósito de Deus, de verdade, na minha vida. Eu pensei “É senhor, tu existe de verdade. Quero ser restaurado por ti”. Como é que alguém ia descobrir tanta coisa assim? Respondi pra ela que se Deus me tirasse dali em menos de dois anos como ela tinha falado, serviria a Deus. Depois disso, ela falou que sua missão estava cumprida, que o que ela tinha de fazer, estava feito.

Como você saiu da prisão?

Lembro que quando completou um ano e dois meses encarcerado, fui liberto daquele lugar. Não conseguia entender o porquê de ter saído,  e  nem os agentes sabiam Eles me disseram apenas para não aprontar mais. Na ocasião. estava com meus quase quatorze anos, mas ainda não tinha documentos, então não podia precisar minha idade. Meu registro consegui há cinco anos, com a ajuda da Justiça. Então,fiquei alegre naquele momento. Saí numa sexta à tarde e fui usar drogas. Usei a noite inteirinha. Pela manhã. lembrei de tudo o que aquela mulher havia falado, e que a promessa de Deus estava se cumprindo na minha vida. Aí, eu lembrei de uma base da Jocum que existia em Recife. Na base havia um rapaz, Edmilson, que foi a primeira pessoa a me ajudar, e  que hoje considero um irmão. Ele falou com o Uli, que hoje considero meu pai, e pediu para ele me ajudar a sair das drogas. O Uli me fez uma proposta meio absurda. Ele me deu um tipo de ferramenta pra roçar mato, e falou que tinha um pedaço de terra pra eu limpar. E era muito mato! Se eu conseguisse limpar aquilo lá, ele me daria uma passagem para Belo Horizonte, para um centro de recuperação. Eu trabalhei tanto que eu mal conseguia pegar na ferramenta, tão cheias de calos que ficaram nas minhas mãos. Lembro que em uma semana, consegui limpar todo aquele mato, porque estava com uma força de vontade muito grande. Ele se admirou muito disso e comprou minha passagem para Belo Horizonte.

Como foi em Belo Horizonte?

Fiquei o tempo que tinha de ficar na casa de recuperação. Pra gente comer, era preciso decorar um versículo da Bíblia a cada refeição. Se você não soubesse recitar, não comia. Como eu não sabia ler, pedia para alguém ler pra mim, e eu decorava enquanto trabalhava. Eu pedia pra ninguém falar comigo, para que eu conseguisse decorar. O primeiro versículo que decorei me marca até hoje. É João 8.28-32 que diz “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. Isso é uma verdade na minha vida. Fiquei lá nove meses, e fui para o centro de recuperação de Belo Horizonte, onde comecei a trabalhar com meninos de rua. Eu tinha uns 15 anos. Aí, minha vida começou a ser diferente. Passado um tempo, eu voltei pra Recife, onde fiquei na base da Jocum trabalhando também com  meninos de rua, nas comunidades. Até hoje, faço isso em Belém é o que me ajuda, pois não desejo pra ninguém o que passei na vida.

De lá, você foi fazer um curso em Sergipe, onde outro grande milagre na sua vida aconteceu, não é mesmo? Conte pra gente.

Saí da base de Recife para Aracaju-Sergipe,  fazer um curso, a ETED (Escola de Treinamento e Discipulado). Fui sem saber ler, porém disse “é…vou fazer esse curso, mas não sei como, não sei ler“. Por uns dois meses, eu escutava a aula e fazia as provas com a ajuda das pessoas. Dizia o que achava que era a resposta, a pessoa escrevia e depois eu reescrevia na prova, porque não sabia ler. Lembro que comecei a buscar ao Senhor e na oração, disse “Senhor, não aceito isso pra mim. Quero aprender a ler, escrever“. Toda vez, ia dormir, 2, 3 horas da manhã, escrevendo o que tinha num livro, e no outro dia de manhã, estava quase dormindo na aula, além de minhas mãos já estarem doendo de tanto escrever. Um dia, peguei a minha Bíblia e coloquei debaixo do meu travesseiro e falei pra Deus: “Olho pra isso aqui e é a mesma coisa que não estar vendo nada. Pra que é  que tenho isso então? Se não entendo nada. Senhor, quero aprender, mesmo”. Coloquei a Bíblia debaixo do travesseiro e dormi. E todo dia, assim, umas 5h da manhã, acordava, levantava pra orar num campinho pequeno que tinha lá, sabe? Nesse dia, levantei – égua, foi muito firme essa experiência que tive com Deus – lembro que abri a Bíblia e comecei a ler aquilo ali, entender. Não estava acreditando naquilo, fechava a Bíblia, abria em outro lugar e começava a ler de novo. Então chamei uma menina que estava perto e comecei a ler pra ela. Perguntei se aquilo estava certo. Ela respondeu que sim. Eu disse pra ela que não sabia explicar aquilo, mas que tinha orado a  Deus e pedido a Ele, pra ler e escrever e acordei podendo ler a Bíblia.

Nas aulas, estava escrevendo como todo mundo. Quando cheguei no curso, era meio doido ainda, de cabelo grande, brinco, e a maioria das pessoas ali não aceitava muito isso, então, quando Deus fez esse milagre na minha vida, essas pessoas começaram me ver com outros olhos, como uma pessoa que realmente orava a Deus. Eu comecei a fazer as minhas provas do jeito que queria fazer. Só com a ajuda de Deus, falei pra Deus: “Não é que não queria a ajuda dos outros, mas é que quero depender só de ti”. Nessa época, já estava quase pra fazer 18 anos. Passado um tempo, tive a oportunidade de vir para o Norte, fazer missões.

E em relação ao seu casamento? Como foi?

Lembro que viajei pra São Paulo em 2007, para um congresso com a Maria (minha esposa). Eu sempre fui muito amigo dela e eu disse pra ela que iria conhecer lá minha futura esposa. Tive umas amizades especiais, mas vi que não era o que Deus queria pra mim. Em 2008, falei pra Deus que queria minha esposa. Eu tinha muita vontade de ter a minha família, porque sempre me senti muito sozinho. Lembro que estava orando e Deus me perguntou:  “Sabe aquela pessoa por quem você estava orando? Ela está aqui na base. É a Maria”. Num dia de divulgação no Castanheira (shopping) de um trabalho da Jocum, eu estava nervoso pra falar pra ela. Fiquei até doente de tão nervoso pra falar que ela era a mulher de Deus pra mim. Depois lanchamos naquela noite…eu disse “Tenho um negócio pra te dizer“…ela me perguntou o que era, eu disse: “Tu sabes”. De tão nervoso, só saía isso. Não teve jeito de dizer outra coisa. Ela disse: “Tu tá gostando de mim, não é?”. Então disse para ela que iríamos orar pra ver se não era só paixão. Com um mês, declaramos namoro, com cinco meses, noivado, e depois a gente casou. E agora, a Aninha está chegando. E antes de tudo, somos amigos, e fazendo aquilo que a gente gosta na obra de Deus. A nossa vida depende muito da ajuda das pessoas. Nós vivemos uma vida de confiar totalmente em Deus. A partir de outubro, a nossa vida será diferente. Quero dar pra minha filha aquilo que não tive. Amor, carinho, aniversários, abraços. Não quero que ela passe pelo que passei. Primeiro quero que ela conheça a Deus, e depois que ela tenha carinho meu. Eu sou meio grosseiro, mas a Aninha vai ser o xodózinho do papai. Estou muito feliz, e quero agradecer a Deus pela Igreja Batista Sião. Eu agradeço a Deus pela igreja e pastores que tenho hoje. Pois sabemos que tudo isso veio para somar em nossa vida. Daqui a uns anos, vamos para o sertão da Bahia.

Editado por Luciana Almeida

Revisado por Fernando Cavalheiro e Luís Fernando Almeida

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comentários
  1. Elizângela Borges disse:

    Nossa… que belo testemunho de forte impacto! Que Deus abençoe você Leandro, que Ele continue a direcionar os seus passos, lhe dar perseverança todos os dias e discernimento em tudo o que fizeres, assim como à sua família! É tão bonito ver como o Senhor age na vida das pessoas… isso me emociona muito, me traz a certeza de que vale a pena falar dEle todos os dias para as pessoas… me traz o sentimento de que o meu chamado não é em vão!!!! Me senti muito edificada com esta história de vida! Deus é Deus… e isso basta!

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